A versão original do Necronomicon, conhecida como Kitab Al-Azif (Livro de Al-Azif), foi escrita por volta do ano 730 D.C, em Damasco pelo árabe, Abdul Al-Hazred (ou Abd al-Azrad dependendo da versão do biógrafo).
Pouco
se sabe à respeito da vida e dos feitos de Al-Hazred, mas supõe-se que
ele tenha sido um astrônomo, filósofo, poeta e cientista que na metade
final da vida se dedicou ao estudo das artes místicas e ciências
proibidas.
Nascido no ano 700 em Sanaa, atual Iemen,
Hazred teve educação esmerada, supõe-se que ele tenha estudado com
grandes sábios em Damasco, homens que o acolheram e ensinaram noções de
matemática, ciência e filosofia. Ele também teria aprendido alquimia e
os segredos das transmutações. Em algum momento, sua atenção foi
desviada para o estudo do ocultismo, disciplina que despertou enorme
fascínio.
É
possível que ele tenha se envolvido com cultos e seitas proibidas ainda
em sua passagem por Damasco, mas alguns biógrafos crêem que ele teria
se juntado a uma seita de adoradores da morte, relacionada aos ghouls.
Mais tarde, ele se tornou um seguidor de Yog-Sothoth e aprendeu os segredos que o transformaram em um feiticeiro.
Antes
de escrever seu grande trabalho, o árabe viajou por anos em uma espécie
de peregrinação espiritual na qual visitou a Babilônia, as catacumbas
de Menphis, a mítica Cidadela sem Nome e a região interior do Grande
Deserto ao sul da Arábia. Durante essa árdua jornada ele vagou por áreas
desoladas, habitadas no passado distante por civilizações perdidas
detentoras de um conhecimento esquecido. Ele também teve acesso a
bibliotecas proibidas, vasculhou coleções particulares e se aventurou em
ruínas cobertas pela areia e poeira. Por fim, emergiu dessa provação
com um vasto conhecimento profano que decidiu registrar em um
manuscrito.
Al-Hazred começou a escrever o livro que
imortalizaria seu nome em Damasco, em meados do ano 735. Um de seus
discípulos registrou que Azred passava noites inteiras acordado
escrevendo suas memórias que o levavam a um estado de estupor e pânico.
Al-Azif,
título que ele escolheu para sua obra, pode ser traduzido como
"murmúrio", mas o termo se refere mais especificamente ao som que
insetos (cigarras em especial) fazem quando o dia se vai e a noite
começa a chegar. Um som de presságio que alerta para a escuridão que se
aproxima
O feiticeiro morreu em 738, de acordo com seu biógrafo, Ebn-Khallikan.
A lenda afirma que ele foi devorado por um demôno invisível que o fez
em pedaços no centro de um bazar de Damasco em plena luz do dia.
Após
a morte de Hazred, sua casa - um lugar temido por todos na cidade - foi
destruída por uma turba furiosa. Alguns objetos de valor foram salvos
da multidão, entre eles os Manuscritos que compunham o Al-Azif. Cópias
destes começaram a circular secretamente na forma de rolos de pergaminho
em poder de escolásticos da época.
Apenas em 950 uma cópia foi traduzida para o idioma grego pelo bizantino Theodorus Philetas, que localizou um volume do Al-Azif na Biblioteca Imperial de Constantinopla.
Sabendo que o livro atraía a atenção de censores, Philetas decidiu
renomear a obra com o título Necronomicon (que pode ser traduzido como "O Livro dos Nomes Mortos", ou de forma mais completa "O Livro das coisas pertinentes aos Mortos").
Pouco
depois de concluir a tradução, a família de Philetas enfrentou a ruína
financeira e ele fez várias cópias para serem vendidas a famílias
influentes, nobres e estudiosos do Império. O aumento da circulação do
livro levou a sua eventual condenação em 1050 pelo Patriarca Michael de Constantinopla.
Muitas cópias (dizem que no total 171) foram confiscadas e destruídas
pelas autoridades. Aqueles que as possuíam receberam severa punição e
alguns chegaram a ser banidos. Quanto a Philetas (cujo nome pode ser uma
corruptela de "Philetos", herege) desapareceu dos anais da história.
Em 1228, um monge de nome Olaus Wormius
(possivelmente dinamarquês, mas certamente de origem escandinava)
descobriu uma cópia do Necronomicon escondida na biblioteca de um
monastério na Jutlândia. Decidido a divulgar o livro
como forma de enfrentar o mal, ele fez a tradução da obra para o Latim a
partir do grego clássico. Olaus não alterou o título em grego, e
Necronomicon passou a ser o título de todas as versões seguintes.
O
trabalho de Wormius foi copiado exaustivamente pelos monges, até que a
ordem monástica da qual ele fazia parte foi desarticulada após sérias
acusações de heresia. Antes disso, vários manuscritos completos já
haviam sido enviados para círculos filosóficos e religiosos para serem
analisados. É bem possível que exemplares tenham se extraviado indo
parar nas mãos de cultos e de feiticeiros, justamente os inimigos que
Wormius tencionava enfrentar.
Em 1232, ambas as edições grega e latina, foram incluídas no Index Expurgatorius pelo Papa Gregório IX
que havia tomado conhecimento do teor ofensivo do livro. Algumas cópias
foram interceptadas, mas o livro continuou sendo copiado e divulgado
ganhando notoriedade.
Rumores
afirmam que a versão em latim circulou além das fronteiras nacionais e
que exemplares chegaram a França no século XIII. Uma tentativa de
traduzir o livro para o idioma francês teria sido tentada, mas os monges
envolvidos acabaram capturados e escomungados.
Em 1454 o avanço
nas técnicas de impressão com tipos móveis permitiu uma maior
disseminação de livros. Antes do final do século XV, uma versão em latim
do Necronomicon impressa em black-letter gothic surgiu na Alemanha, provavelmente em Mainz. O texto, não trazia qualquer identificação sobre o local ou data de impressão.
Pouco
depois, outro monge de nome Wormius (possivelmente um descendente de
Olaus), trabalhando como oficial da Inquisição espanhola à serviço de Torquemada
iniciou a tradução de um volume do Necronomicom. Seu objetivo era fazer
uma transição para o idioma espanhol. Antes de concluir o trabalho ele
foi descoberto e acusado de heresia sendo queimado numa fogueira em
Sevilha em no ano de 1487.
No início do século XVI, uma versão
traduzida do grego foi impressa na Itália. Embora novamente não houvesse
marcas de identificação, acredita-se que essa versão tenha sido
impressa por Audus Manutius, fundador da Aldine, famosa gráfica veneziana especializada emtextos originais gregos e latinos.
Entre 1576 e 1579, Miguel Cervantes,
autor de Don Quixote foi mantido como escravo e prisioneiro em Algiers.
Alguns estudiosos afirmam que ele teria obtido uma cópia do
Necronomicon latino e realizado uma tradução preliminar para o idioma
espanhol, nomeando o resultado como "El Libro de los Nomes Perdidos".
Verdade ou mentira, esse livro teria sido enviado para a Espanha
servindo como base para uma segunda edição impressa em Cadiz.
Em 1586 uma tradução em inglês do Necronomicon foi produzida pelo Dr. John Dee,
matemático, astrólogo e médico da Rainha Elizabeth I da Inglaterra.
Jamais publicada, a versão de Dee foi traduzida tendo como base uma
cópia do manuscrito grego, obtido no leste europeu (especula-se como
presente na corte de Rodolfo II de Praga).
A
cópia traduzida por Dee eventualmente acabou sendo passada para um
colecionador que farejando fortuna produziu várias cópias para serem
vendidas clandestinamente. Um destes volumes deu origem ao Manuscrito de Sussex, também chamado de Cultus Maleficarum, uma versão compilada pelo Barão Frederic.
Essa edição chegou a ser publicada na Inglaterra em 1597, mas poucas
cópias sobreviveram aos expurgos e perseguições movidos contra ela
Um trabalho com o título "Al-Azif - o Livro do Árabe",
escrita em inglês provinciano, repleta de erros de gramática circulou
pela Grã-Bretanha no século XVII. Esse texto provavelmente se resume a
um apanhado de trechos e tópicos retirados do Necronomicon.
O
Necronomicon continuou circulando pela Europa, sendo traduzido para
vários idiomas graças a estudiosos e pesquisadores interessados em
desvendar seus segredos. Entretanto, nenhuma tradução posterior a da
edição em inglês podia se comparar às anteriores.
As versões
traduzidas para o francês (1662), alemão (1670) e russo (1688) para
citar apenas três exemplos, já haviam sido diluídas e/ou censuradas a
tal ponto que se distanciavam enormemente da obra original. Isso
acontecia pois o teor blasfemo do Necronomicon por vezes ofendia os
tradutores de tal forma que eles delibradamente omitiam alguns tópicos.
No
correr do século XVIII, cópias do Necronomicon foram carregadas para o
Novo Mundo como parte de valiosos tesouros ou contrabandeados para longe
por cultistas, feiticeiros ou estudiosos.
Uma das primeiras edições a chegar à América foi transportada para a Nova Inglaterra no ano de 1714. Este volume em inglês teve importante papel em distúrbios ocorridos na cidade de Kingsport em 1722. Outra cópia, desta vez em latim, foi destruída após o linchamento do rico comerciante Joseph Curwen
de Providence, Rhode Island. Acusado de feitiçaria Curwen teve sua
propriedade destruída por camponeses insatisfeitos com sua presença em
meados de 1771.
Finalmente, uma cópia do Necronomicon foi adquirida pela Biblioteca Orne da Universidade Miskatonic em 1895. A compra foi feita pelo bibliotecário chefe, Henry Armitage que desconhecia a fama do estranho livro. Curiosamente o livro havia sido adquirido a partir do espólio de Whipple Phillips, avô materno de ninguém menos que H.P. Lovecraft.
Fonte: Mundo Tentacular
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